“As causas profundas dos conflitos e da exploração da criação têm origem numa crise ética e cultural, que inclui a perda do sentido dos limites, a vontade de domínio, a busca do lucro imediato e a incapacidade de reconhecer a dignidade concedida por Deus a cada pessoa humana”. Papa Leão XIV, Mensagem alusiva ao Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação, Vaticano, 15 de agosto de 2026.
Na próxima terça-feira, 1º de setembro, será o Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação, cujo tema ecumênico é “Água Viva”, inspirado na visão do profeta Ezequiel (Ezequiel 47:9, 12) sobre o rio que brota do Templo e traz cura aos ecossistemas e biomas em todo o planeta que estão sendo destruídos impiedosamente pela ganância e pela busca apenas do lucro e pelo uso irracional dos recursos naturais.
Entre 1º de setembro e 4 de outubro, desde 1989, quando teve origem o Tempo da Criação, todos os anos um tema é escolhido para embasar as reflexões/orações e também as ações com o objetivo de restaurar a integridade das obras da criação.
O Tempo da Criação tem 34 dias até 4 de outubro, quando estaremos celebrando os 800 anos do falecimento de São Francisco de Assis, Patrono/Padroeiro da Ecologia Integral e da Causa Animal, em uma dimensão ecumênica e também inter-religiosa que inclui ORAÇÃO e também AÇÃO.
Costumo dizer, apesar de chocar algumas pessoas, mas amparado por preceitos bíblicos, que ORAÇÃO SEM AÇÃO É PURA ALIENAÇÃO, à vista do que consta do texto sagrado ao dizer: “Assim também a fé, se não tiver as obras, é morta em si mesma”, como consta da Carta de Tiago 2:17.
O tema do Tempo da Criação deste ano (2026) é “Água Viva”, que, além de seus referenciais bíblicos, também nos remete para questões concretas da realidade mundial e de praticamente todos os países, incluindo o Brasil.
A crise hídrica mundial e brasileira está inserida na crise climática, em que o aquecimento global tem provocado sérias consequências, como o derretimento das calotas polares, das grandes geleiras, a elevação do nível dos mares e oceanos e o aquecimento de suas águas, a destruição das nascentes, decorrente do desmatamento e das queimadas, como tem ocorrido em todos os biomas brasileiros, a presença de eventos climáticos extremos, como secas prolongadas, tempestades imensas e alagamentos em diversas partes do planeta, destruição da biodiversidade animal e vegetal, enfim, o aumento da poluição do ar, das águas e dos solos.
Desastres como as grandes enchentes que acontecem todos os anos, como no Rio Grande do Sul ou em diversos países asiáticos, queimadas imensas na Europa, nos EUA, Canadá, Brasil e diversos outros países estão sendo cada vez mais frequentes e devastadores, diante da omissão de governantes, empresários, lideranças em geral e também por parte da população, inclusive da juventude, sobre a qual as consequências serão mais impactantes dentro de algumas décadas.
Diante disso, estou “rascunhando” uma reflexão, para transformá-la em artigo, tentando “interpretar” as DGAE (Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil) para o período de 2026 a 2032, Doc. 114 da CNBB (aprovado na última Assembleia Geral dos Bispos do Brasil, em abril passado, em Aparecida), à luz de uma FÉ ENCARNADA, com destaque para as ações pastorais, inseridas no contexto das ações sociotransformadoras e também iluminadas pelas resoluções do Concílio Vaticano II.
Com certeza, tendo em vista a presença da Igreja Católica e demais Igrejas Cristãs e tantas outras religiões no Brasil, se houver um compromisso concreto para mudar os rumos desta destruição planetária, por pior que seja a realidade, a situação, animados por uma fé engajada, poderemos despertar a consciência da população em geral e também dos governantes e empresários para estabelecermos uma convivência mais harmônica e humana entre as sociedades e a natureza, no contexto das Obras da Criação.
Oxalá nossos sacerdotes, religiosos, religiosas, todos os fiéis, enfim, a população em geral, possam participar dessas celebrações de uma maneira mais engajada e contextualizada na realidade de cada território em que as Igrejas cristãs e demais religiões estejam presentes no Brasil, diante de tanta pobreza, exclusão, destruição ambiental, violência e manipulação política.
Talvez, assim, um dia consigamos ter realmente uma Igreja Sinodal e também profética e Samaritana, em que a fé encarnada seja algo concreto, da mesma forma que políticas públicas voltadas para um melhor cuidado com o meio ambiente, em uma demonstração de uma ampla conversão ecológica individual e comunitária (coletiva), cumprindo integralmente, por exemplo, o texto constitucional no Artigo 225 da Constituição Federal, que estabelece de maneira bem clara que “Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações”.
Concluindo, transcrevo duas exortações do Papa Francisco: “A terra, nossa Casa Comum, parece transformar-se cada vez mais num imenso depósito de lixo” (Encíclica Laudato Si, 2015: 21) e “A humanidade é chamada a tomar consciência de mudanças de estilos de vida, de produção e consumo responsáveis e sustentáveis, para combater esse aquecimento global ou, pelo menos, as causas humanas que o produzem ou acentuam”. (Encíclica Laudato Si, 2015: 23).
Este é o contexto em que devemos celebrar o Tempo da Criação 2026 e outros mais.
JUACY DA SILVA | é professor fundador, titular e aposentado da Universidade Federal de Mato Grosso, sociólogo, mestre em sociologia, ambientalista, ativista social, Articulador da Pastoral da Ecologia Integral Região Centro-Oeste. Email [email protected] WhatsApp 65 9 9272-0052 Instagram @profjuacy



