16 de junho de 2026 2:49 PM

Astrônomos encontram marca química de planeta devorado por estrela

Cientistas observaram que uma das estrelas apresenta maior quantidade de elementos refratários.

Foto: Anne Rathsam | Adobe Firefly

ROBERTO PEIXOTO | G1

Duas estrelas “gêmeas”, nascidas ao mesmo tempo e da mesma nuvem de gás e poeira, deveriam ter exatamente a mesma composição química.

Mas não é isso que astrônomos têm observado em alguns sistemas binários — pares de estrelas que orbitam uma à outra.

Em alguns casos, uma das estrelas aparece mais “enriquecida” em determinados elementos do que sua gêmea, e os cientistas ainda não sabiam exatamente por quê.

Uma nova pesquisa, liderada por astrônomos do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (IAG/USP), em parceria com cientistas da Polônia, Itália, China e Austrália, encontrou uma explicação para esse mistério.

E, de quebra, uma nova ferramenta para identificar estrelas que, no passado, podem ter devorado um de seus próprios planetas.

O estudo, publicado na revista “Astronomy & Astrophysics”, analisou o par de estrelas HD 129171 e HD 129209 e descobriu que uma delas tem uma quantidade maior de certos elementos químicos do que a outra.

Para os cientistas, essa diferença é a “marca” deixada por um planeta rochoso que foi engolido.

Em entrevista ao g1, a astrônoma Anne Rathsam, aluna de doutorado no IAG/USP e autora principal do estudo, explicou o passo a passo da descoberta e o que ela representa.

Segundo Rathsam, para entender o que aconteceu com essas estrelas, é preciso primeiro olhar para sua composição química.

“O que ‘entrega’ que a estrela engoliu um planeta é a sua composição química”, explicou a pesquisadora. “Quando a estrela ingere um de seus planetas, esse material é misturado na sua superfície.”

A astrônoma destaca que existem dois grandes grupos de elementos químicos: os voláteis, que costumam existir na forma de gás, e os refratários, que normalmente formam sólidos — e que são justamente os principais ingredientes de planetas rochosos, como a Terra, e dos núcleos de planetas gigantes, como Júpiter.

Foi exatamente esse segundo grupo que chamou a atenção dos pesquisadores. Ao comparar as duas estrelas do par, eles notaram algo curioso: quanto mais “refratário” era o elemento analisado, maior era a diferença entre as duas estrelas.

A estrela HD 129171 se mostrou consistentemente mais rica nesses materiais do que sua gêmea, HD 129209 — um padrão que, segundo os cientistas, só faz sentido se ela tiver “absorvido” rocha extra em algum momento de sua história.

Dentro desse grupo de elementos refratários, dois deles roubaram a cena na pesquisa: o lítio e, principalmente, o berílio.

A explicação está na forma como esses elementos se comportam dentro de uma estrela.

Nenhum dos dois é produzido no interior estelar — ou seja, qualquer “sobra” inesperada desses elementos só pode ter vindo de fora, da ingestão de material rochoso.

Ao mesmo tempo, ambos vão sendo lentamente destruídos pelo calor extremo do núcleo da estrela conforme o tempo passa.
A diferença é que o lítio é destruído a temperaturas mais baixas — cerca de 2,5 milhões de graus Celsius — enquanto o berílio resiste até cerca de 3,5 milhões de graus. Para se ter uma ideia, mesmo o Sol, com sua superfície “amena” de 5.800°C, tem um núcleo que chega a 15 milhões de graus.

Isso significa que, quando uma estrela engole um planeta, ela ganha um “excesso” temporário de lítio e berílio — mas, com o tempo, esse sinal vai se apagando.

Como o berílio aguenta temperaturas mais altas antes de ser destruído, sua marca dura mais tempo do que a do lítio.

Por essa razão, segundo a pesquisadora, estudos anteriores sobre possíveis casos de “estrelas devoradoras de planetas” haviam deixado o berílio de lado, justamente pela dificuldade técnica de medi-lo — uma lacuna que esta pesquisa ajudou a preencher.

“Como o berílio é destruído a temperaturas mais altas, ele é mais resistente, e sua assinatura pode durar mais tempo do que a assinatura de lítio. Dessa forma, o berílio pode ser um indicador mais forte de ingestão planetária do que o lítio.”
— Anne Rathsam, aluna de doutorado no IAG/USP e autora principal do estudo.

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