ANDRÉ ALVES
Especial para o Palanque Mato Grosso
É crescente o número de empresas que estão adotando ações para promover a diversidade entre seus colaboradores. Sim, há executivos que entenderam que acolher as diferenças traz ideias e soluções mais criativas para evolução do negócio e atendimento aos clientes.
No entanto, a maioria dos empreendimentos pouco ou nada faz para contratar quem foge de um padrão pré-estabelecido no imaginário brasileiro. Há empresas que fazem ações para atrair clientelas específicas e tem aquelas que apenas tentam cumprir o mínimo para atração de pessoas com deficiências (PCD).
Ok, temos que admitir que aceitar o novo ou o diferente não é fácil. Todos — incluindo eu e você — possuímos estereótipos mentais sobre o perfil de determinada pessoa e qual seria sua possível profissão. Dúvida? Façamos um teste. Imagine um médico, um advogado, um CEO de uma grande empresa, um palestrante famoso, um engenheiro, um piloto de avião, um investidor de ações, um arquiteto, um banqueiro. Todos juntos na mesma sala.
Pensou?
Seja honesto consigo mesmo e responda: quantas pessoas dessas profissões você imaginou que seria um negro? Uma mulher? Uma pessoa muçulmana? Com espectro autista? Cadeirante ou com um membro amputado? E um refugiado? Ou uma pessoa trans? E obesa? E alguém com nanismo?
Pronto. Creio ter sido um exercício bem prático de como demonstrar esse pensamento estereotipado, também conhecido como viés inconsciente.
Entender que temos isso e que podemos mudar nossa forma de pensar é de vital importância. Mas isso só funciona com ações que realmente promovam a celebração da diversidade.
Convidar para dançar
Confesso que não sou fã da frase: diversidade é ser convidado para a festa, inclusão é chamar para dançar. Acredito que tenha dois problemas.
Convidar alguém para dançar sugere uma caridade, uma boa ação, benéfica, em última medida, mais para o ego de quem convida do que para o convidado. O segundo ponto é que convidar “um” espelha um Diversity Washing, quando o discurso é bonito, mas a prática é vazia.
Ou, em outras palavras, diversidade e inclusão, sem pertencimento, não resolve muita coisa. Quando há esse sentimento, é porque a diversidade está estabelecida e é celebrada e não apenas aceita. O convite não se faz necessário. Todos querem organizar a festa e podem convidar para dançar tanto quanto serem convidados. Ou dançarem sozinhos. Ou não dançar.
Mas como chegar nisso? Não tem resposta simples, mas há consultorias especializadas para analisar o caminho a ser percorrido por uma empresa. Mas o primeiro passo, começa pela decisão e vontade da alta liderança.
E é preciso incluir uma outra peça: equidade
Diferente de igualdade, não é dar as mesmas condições para todos, mas sim de prover os meios necessários para que todos tenham as mesmas condições.
Como dito anteriormente, o imaginário de uma pessoa bem-sucedida é um homem branco hétero, formado em universidade de renome. O diferente disso não é melhor, nem pior. Apenas, e estou relativizando muito esse apenas, teve empecilhos históricos, geracionais, de acessibilidade, de oportunidade, de entendimento.
Um exemplo clássico. Um levantamento do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) mostrou, que em 2020, 21% jovens de negros de 18 a 24 anos haviam se matriculado no ensino superior contra 36% dos jovens brancos na mesma faixa etária. Há 20 anos, a diferença era muito maior, já que o ingresso da população negra nas universidades aumentou 400% após o início da política de cotas.
Ainda assim, na prática, a frase da Lisiane Lemos, Secretária Extraordinária de Inclusão Digital & Apoio à Políticas de Equidade do Rio Grande do Sul, mostra como seu sucesso é exceção e não a regra:
“Como a maioria dos jovens negros desse país, eu renunciei ao meu sonho e encarei a realidade.”
Além de seu talento, teve oportunidades raras que fizeram a diferença em sua vida. O que a maioria não tem. Quantas pessoas diversas são contratadas nas empresas? Quanto tempo ficam? Por que saem? Quantas são promovidas? Quantas exercem cargos de liderança?
Enquanto não soubermos falar a verdade, sem a make up de que todos têm as mesmas oportunidades não se avançará, plenamente, na celebração da diversidade.
Não dá para falar que são todos bem-vindos nas empresas, nas escolas e em qualquer lugar se as condições são como uma corrida com barreiras para todos aqueles que não são privilegiados. Enquanto isso, os que tiveram todas as oportunidades e regalias na vida já estão na linha de chegada.
*ANDRÉ ALVES é jornalista com especialização em Antroposofia




