Há dores que o tempo não apaga. Há marcas que não aparecem no corpo, mas acompanham uma pessoa por anos. Só quem foi vítima de uma injustiça sabe o peso de tentar reconstruir a própria reputação depois que ela foi destruída diante da opinião pública.
Sempre que vejo o ex-governador Pedro Taques comentar sobre investigações, moralidade ou credibilidade, sou inevitavelmente transportada para 2016. Não porque eu queira reviver aquele período, mas porque ele mudou a minha vida de uma forma que jamais consegui esquecer.
Fui uma das pessoas que tiveram o nome exposto no episódio que ficou conhecido como “Grampolândia Pantaneira”. Durante muito tempo, carreguei um rótulo que nunca me pertenceu. Meu nome circulou em reportagens, listas e comentários, e passei a ser vista por muitos como alguém ligada ao crime, quando, na realidade, eu era apenas uma jornalista que trabalhava no próprio governo.
Minha história com Pedro Taques começou anos antes. Em 2010, quando ele deixou a carreira de procurador da República para disputar uma vaga ao Senado, trabalhei na assessoria de imprensa de sua campanha. Eu era jovem, estava dando os primeiros passos na cobertura política e acreditava no projeto que estava sendo apresentado aos mato-grossenses. Naquele mesmo período, Mauro Mendes disputava o Governo do Estado e era um dos principais aliados políticos de Taques.
Anos depois, em 2015, Pedro Taques foi eleito governador de Mato Grosso. Durante sua gestão, voltei a integrar sua equipe de comunicação, imaginando que exerceria apenas o meu trabalho como jornalista.
Mas tudo mudou em maio de 2017.
Enquanto participava do velório de um policial militar — cerimônia da qual o próprio governador também participava — recebi uma ligação de uma emissora de televisão. Do outro lado da linha, fui informada de que meu nome aparecia entre as pessoas monitoradas ilegalmente e que essa informação havia sido divulgada nacionalmente pelo programa Fantástico.
Lembro-me exatamente da sensação daquele instante. Foi como se o chão desaparecesse sob meus pés.
Sem entender absolutamente nada, procurei imediatamente Pedro Taques e perguntei como aquilo havia acontecido. Sua resposta foi breve: disse que não sabia do caso e orientou que eu procurasse Paulo Taques, então chefe da Casa Civil.
Foi a última vez em que consegui tratar do assunto diretamente.
Depois daquele dia, minhas mensagens deixaram de ser respondidas. Minhas tentativas de conseguir uma conversa foram ignoradas. Paulo Taques também não me deu qualquer explicação. Continuei insistindo, tentando apenas compreender por que meu nome havia sido envolvido naquela situação.
Em uma das últimas tentativas de marcar uma audiência, ouvi de uma integrante da equipe do governador uma frase que jamais esqueci: “O Pedro tem muito mais o que fazer do que ficar falando dessas coisas.”
Pouco tempo depois, fui exonerada.
Até hoje, guardo a convicção de que minha exoneração aconteceu porque eu insistia em buscar respostas. Eu queria apenas entender por que aquilo havia acontecido comigo. Em vez de receber explicações, fui afastada da equipe, exonerada pelo whatsapp, encerrando qualquer possibilidade de diálogo.
A partir dali começou uma das fases mais difíceis da minha vida.
Meu nome passou a ser associado a uma narrativa extremamente cruel. Fui chamada de “capanga de traficante”. Pessoas que sequer conheciam minha história passaram a me julgar. Alguns colegas da imprensa, por receio ou preconceito, evitaram qualquer aproximação comigo. Havia quem não quisesse sequer ser visto ao meu lado para não ser associado ao escândalo.
Profissionalmente, portas se fecharam.
Enviei currículos, procurei oportunidades e ouvi, mais de uma vez, que meu nome carregava uma marca negativa para veículos de comunicação. Poucos estavam interessados em conhecer a verdade. Bastava a manchete. Bastava o estigma.
A dor, porém, não foi apenas profissional.
Naquela mesma semana em que fui informada sobre os grampos, perdi uma gestação.
Nunca saberei dimensionar o quanto o abalo emocional contribuiu para aquele desfecho. O que sei é que vivi dias de profundo sofrimento, medo e angústia. Mergulhei em uma depressão silenciosa. Passei meses tentando entender por que tudo aquilo havia acontecido comigo.
Minha própria família, apesar de permanecer ao meu lado, também sofria diante da dimensão do caso. Muitas vezes ouvi perguntas que me feriam profundamente: “Mas como um governador faria isso com alguém sem motivo? Alguma explicação deve existir.”
Essas dúvidas doíam tanto quanto as acusações.
Meu relacionamento também não resistiu. As conversas que deveriam pertencer apenas ao casal passaram a carregar o peso da desconfiança e da sensação de que nossa intimidade havia deixado de existir.
Foram anos tentando reconstruir aquilo que uma exposição pública destruiu em poucos dias: minha reputação, minha tranquilidade e minha confiança nas pessoas.
Escrevo este texto sem qualquer sentimento de vingança.
Também não o escrevo para alimentar disputas políticas.
Escrevo porque existem dores que só são compreendidas por quem as viveu.
Hoje, quando vejo Pedro Taques fazer declarações públicas envolvendo credibilidade ou investigações, lembro imediatamente do período mais devastador da minha vida. Lembro da jornalista que precisou provar inúmeras vezes que nunca foi aquilo que disseram. Lembro da mulher que perdeu oportunidades, amizades, um relacionamento, uma gestação e, por muito tempo, até a paz.
Independentemente das responsabilidades jurídicas que foram discutidas ao longo dos anos, a experiência que vivi deixou cicatrizes permanentes.
Por isso, sempre que escuto discursos sobre ética, transparência e justiça, recordo que credibilidade não é construída apenas com palavras. Ela também depende da forma como tratamos pessoas inocentes quando elas mais precisam de respostas, acolhimento e respeito.
Porque quem nunca teve a vida atravessada por uma injustiça talvez não compreenda o peso que ela deixa.
Mas quem carregou essa dor… jamais esquece.
LARISSA MALHEIROS | é jornalista e empresária



