24 de junho de 2026 1:13 PM

O poder do equilíbrio na era da angústia

Acervo Pessoal

Sejamos sinceros: somos mais felizes que nossos antepassados? Yuval Harari costuma lembrar que a humanidade reduziu, em escala histórica, ameaças antes vistas como inevitáveis: fome, epidemias e guerras. Nesse sentido, nosso tempo aumentou drasticamente as chances de diminuição do sofrimento material em escala global. Mas viver melhor não significa, necessariamente, sofrer menos. A nossa época trouxe consigo um tipo de sofrimento que escapa à engenharia farmacêutica, às planilhas de produtividade e, muitas vezes, à nossa própria coragem de admitir.

O paradoxo do nosso tempo é este: diminuímos muitos sofrimentos materiais, mas normalizamos uma forma silenciosa de angústia — a obrigação permanente de produzir, aparecer, performar e desejar.
Em sua face mais perversa, o neoliberalismo digital tornou-se uma forma inédita e eficaz de esmagamento da alma. Ele remunera seus trabalhadores — que também são produto — com a moeda volátil dos likes. A fábrica digital “gadificou” o homem. Se, no passado, o escravo amedrontava seus senhores porque a opressão excessiva poderia gerar rebelião e o fim do algoz, o homem “gadificado” age diferente. Ele não sai do curral; ele ama a ração. Não é provável que se rebele ou estoure os cercados, pois acredita que o cercado é seu horizonte de escolha.

Precisamos de uma dose urgente de senso crítico para manter o mínimo de sanidade. Vivemos em um sistema que explora a noção de liberdade de forma perversa: ele nos convenceu de que somos livres enquanto ignoramos em que essa liberdade realmente consiste. Esse sistema é flexível e agnóstico. Não é fiel a dogmas; “aplaina” e vende tudo. Até o silêncio, quando aparece, precisa justificar sua utilidade. Green Bank, nos Estados Unidos, é lembrada como uma espécie de santuário de silêncio radioelétrico para proteger um grande telescópio. Ali, as pessoas vivem o silêncio — mas um silêncio funcional, administrado, justificado por uma finalidade técnica.

Onde encontrar, então, uma saída? Se o sistema exige preenchimento constante — de agenda, opinião, desejo, imagem e produtividade — talvez a resistência comece pelo gesto oposto: o esvaziamento. A tradição cristã histórica, não esse “negócio” religioso de hoje, oferece uma pista instigante. Ela não teme o vazio; suspeita do poder absoluto. O apóstolo Paulo afirmava que, para vir ao mundo, Deus esvaziou-se de si mesmo. A kenosis não é uma solução barata e ideológica para a sociedade, mas pode ser uma chave de resistência individual: a coragem de não estar cheio de si, nem das demandas do sistema.

Viver em uma sociedade assim exige um esforço psíquico hercúleo para manter a sanidade. O ponto mais alto a buscar — não como alvo obsessivo, mas como lugar de habitação — talvez seja o equilíbrio. Mas equilibrar-se é um dos exercícios mais odiados pela sociedade do desempenho. Aqui, o descanso precisa virar foto. A leitura precisa virar postagem. A viagem precisa render conteúdo. Até a dor, muitas vezes, parece precisar de legenda.

O equilíbrio é rapidamente assediado pelo sistema porque é subversivo. Ele nos obriga a perguntar o que devemos consumir, produzir, desejar e recusar. Busca o contentamento, não por ressentimento, mas como resultado de uma reflexão profunda sobre a própria existência. No fim, o custo de uma vida equilibrada talvez seja exatamente este: a disposição de recuar diante do ruído coletivo para, finalmente, reencontrar alguma forma de humanidade. Mas cuidado: o sistema também vende equilíbrio.

EDUARDO SILVA LEITE | é historiador, escritor e articulista.

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