28 de outubro de 2026 3:32 PM

Da guerra ao glúten ao refrigerante com fibras: por que estamos transformando a alimentação em motivo de preocupação?

De alimentos que já foram tratados como vilões a produtos enriquecidos com nutrientes considerados benéficos, a busca pela alimentação perfeita pode estar tornando a relação com a comida cada vez mais complexa e um fonte de preocupação, alerta a neurocientista Sophie Deram

Acervo Pessoal

Durante alguns anos, o glúten e a lactose ocuparam o centro de um debate sobre alimentação e saúde. Retirar esses componentes da alimentação passou a ser visto, por muita gente, como um caminho para comer melhor, mesmo quando não havia uma indicação clínica para isso. Agora, em um mercado que aposta cada vez mais em produtos enriquecidos com proteínas, fibras e outros ingredientes funcionais, a lógica parece ter mudado: não basta retirar o que supostamente faz mal, é preciso acrescentar aquilo que promete fazer bem.

O movimento aparece em lançamentos de diferentes categorias, incluindo bebidas que incorporam ingredientes associados à saúde intestinal. A Coca-Cola, por exemplo, anunciou testes com versões de refrigerantes enriquecidas com fibras prebióticas nos Estados Unidos. A tendência acompanha uma transformação na maneira como a indústria apresenta seus produtos, mas também levanta uma questão sobre o comportamento alimentar: estamos aprendendo a cuidar melhor da saúde ou ficando cada vez mais preocupados com o que colocamos no prato?

Para a neurocientista e especialista em comportamento alimentar Dra Sophie Deram, esse cenário merece atenção porque a alimentação corre o risco de ser reduzida a uma soma de nutrientes, ingredientes e promessas. Proteína, fibra, glúten, lactose e açúcar passam a ocupar o centro das decisões, enquanto o alimento em si e o contexto em que ele é consumido perdem espaço. “Parece que estamos sempre procurando alguma coisa para retirar da alimentação ou acrescentar a ela. Primeiro, determinados ingredientes são tratados como vilões; depois, outros aparecem como soluções. E essa busca constante pode fazer com que comer se torne uma fonte de preocupação, em vez de algo que faça parte da vida com mais naturalidade e prazer”, observa Sophie.

Essa lógica também alimenta uma divisão cada vez mais rígida entre alimentos considerados bons e ruins, verdadeiros e falsos, saudáveis e prejudiciais. Quando a comida passa a ser classificada dessa maneira, escolhas cotidianas podem ganhar um peso desproporcional. Um alimento deixa de ser avaliado pelo conjunto de suas características e pelo lugar que ocupa na alimentação para ser julgado a partir de um ingrediente específico. Da mesma forma, um produto que recebe fibras ou proteínas pode adquirir uma imagem de saúde que vai além do benefício efetivamente oferecido por esses componentes.

“Estamos criando uma espécie de terrorismo nutricional quando passamos a olhar para os alimentos com controle excessivo, como se existissem aqueles que podemos comer sem culpa e aqueles que deveríamos evitar a qualquer custo. A alimentação não deve ser dividida entre mocinhos e vilões”, afirma a neurocientista.

Isso não significa que a composição nutricional deva ser ignorada ou que ingredientes funcionais não tenham utilidade. A própria Sophie trabalha com nutrição funcional e nutrigenômica, área que investiga as relações entre nutrientes, genes e organismo. A diferença está na maneira como esse conhecimento é utilizado. “Eu trabalho com nutrição funcional e acredito na importância da ciência para compreendermos melhor o organismo e suas necessidades. Mas faço isso com ciência e consciência. Conhecer os efeitos de um nutriente é muito diferente de transformar esse conhecimento em uma regra para todo mundo ou em mais um motivo para ter medo de comer. Muitas informações que vemos hoje são, na verdade, pseudociência”, explica.

A preocupação, portanto, não está em buscar uma alimentação adequada às necessidades individuais, mas em acreditar que a saúde depende de controlar cada ingrediente, eliminar determinados alimentos ou encontrar uma versão nutricionalmente aprimorada de tudo o que consumimos. A presença de um componente valorizado não torna, por si só, um produto a melhor escolha em qualquer situação. Da mesma forma, a presença de glúten ou lactose não significa que um alimento seja inadequado para todas as pessoas: a necessidade de restrição depende de condições específicas, como a doença celíaca. “A nutrição reducionista, que olha individualmente para cada nutriente e não para o todo, acaba confundindo as pessoas na escolha que faz mais sentido para cada uma delas. Uma cenoura, por exemplo, não é apenas betacaroteno; ela tem fibras, vitaminas e pode ter, também, a lembrança do bolo de cenoura da vovó ou de uma salada gostosa que comeu em um restaurante em uma viagem especial. Alimentação é, também, contexto ”, pontua Sophie.

Há ainda uma dimensão comportamental nessa discussão. Quando a alimentação é cercada por regras, classificações e promessas de resultados, comer pode deixar de ser uma experiência satisfatória e passar a exigir vigilância constante. A pessoa começa a questionar se escolheu o alimento certo, se deveria ter evitado determinado ingrediente ou se precisa compensar uma escolha com outra. O que deveria contribuir para o cuidado com a saúde pode, assim, gerar insegurança alimentar e culpa.

Na avaliação de Sophie, é importante recuperar uma perspectiva mais ampla sobre a alimentação, que considere não apenas os nutrientes, mas também o prazer, a cultura, a rotina, a saciedade e as necessidades de cada pessoa. Isso significa reconhecer que alimentos diferentes podem ter funções e composições distintas, sem transformar essa diversidade em uma hierarquia moral. “Comer também é prazer, convivência, cultura e afeto. Quando ficamos preocupados demais em acertar todos os nutrientes, corremos o risco de perder de vista a experiência de comer e de transformar algo tão cotidiano em uma fonte permanente de ansiedade”, destaca.

Estamos vivendo uma época em que muitos tentam encontrar novas formas de associar produtos a benefícios nutricionais, então é preciso aprender a interpretar essas promessas com senso crítico, sem ignorar a ciência nem se tornar refém dela. A composição dos alimentos importa, mas não precisa transformar cada refeição em um teste de desempenho nutricional.

“Não precisamos escolher entre ignorar a ciência e viver preocupados com cada coisa que comemos. Podemos usar o conhecimento para cuidar da saúde sem transformar a alimentação em uma lista interminável de proibições e obrigações. Comer bem não deveria ser motivo de preocupação, culpa, ansiedade. A ciência precisa nos ajudar a viver melhor e não a ter medo da comida”, conclui Sophie Deram.

SOPHIE DERAM | é nutricionista, autora best-seller, pesquisadora em neurociência do comportamento alimentar e uma das principais vozes no Brasil sobre alimentação e comportamento alimentar. Francesa naturalizada brasileira, é doutora pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), no Departamento de Endocrinologia. Coordena o projeto de genética do Ambulatório de Transtornos Alimentares do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da FMUSP (IPq-HC-FMUSP), com pesquisas em obesidade, obesidade infantil, transtornos alimentares, nutrigenômica e neurociência do comportamento alimentar.

É autora dos livros O Peso das Dietas, Os 7 Pilares da Saúde Alimentar e Pare de Engolir Mitos, publicados pela Editora Sextante. Em seus atendimentos, palestras e conteúdos, defende uma relação mais livre e prazerosa com a comida, com menos restrições e mais consciência, apoiada no conhecimento científico e na compreensão do comportamento humano.

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