22 de setembro de 2026 8:15 PM

Antes de perguntar quanto custa, pergunte quem vai operar

Acervo Pessoal

A procura por transplante capilar cresceu muito no Brasil nos últimos 11 anos. Vejo esse número com sentimentos divididos. De um lado, ele revela a queda de um tabu antigo, que fazia com que a calvície fosse vivida em silêncio e tratada tarde demais. De outro, o crescimento acelerado trouxe um efeito colateral que me preocupa como profissional. O transplante capilar começou a ser tratado como se fosse uma commodity, um item de prateleira que o paciente escolhe comparando preço e número de folículos prometidos, como quem compara passagens aéreas.

O problema dessa comparação é que ela parte da falsa premissa de que se está comparando a mesma coisa. Duas cirurgias que carregam o mesmo nome podem ser completamente diferentes em relação ao planejamento, à participação médica, à estrutura, à experiência da equipe, à preservação da área doadora e à qualidade do acompanhamento. O nome do procedimento é idêntico. O que acontece dentro da sala cirúrgica e nos meses seguintes, não.

Não sou ingênuo a ponto de dizer que preço não importa. Também não acredito que preço baixo seja sinônimo automático de má qualidade, porque existem estruturas e modelos de negócio diferentes convivendo no mercado. E uma diferença muito grande de valor em relação à média precisa, no mínimo, ser explicada. Uma cirurgia envolve médico, equipe treinada, estrutura adequada, equipamentos, esterilização, medicamentos, tempo de sala, planejamento e acompanhamento pós-operatório. Quando o valor destoa demais, cabe ao paciente perguntar onde está a economia, porque ela está em algum lugar.

Faço questão de dizer que existe uma equipe multidisciplinar importante e absolutamente necessária dentro de uma cirurgia capilar. O problema não é a equipe. O problema aparece quando há transferência indevida de atos médicos, ou quando o paciente acredita estar contratando uma cirurgia realizada por determinado profissional e, na prática, partes essenciais são executadas sem a participação médica que ele imaginava ter contratado.

Os efeitos práticos dessa fragilidade já aparecem nos consultórios. O Censo de Transplante Capilar 2023, promovido pela ABCRC, apontou que, em média, 12% dos médicos habilitados associados à entidade atenderam pacientes que precisavam reparar procedimentos anteriores realizados por profissionais sem habilitação ou em clínicas clandestinas. São pessoas que pagaram menos uma vez e agora precisam pagar de novo, com um agravante, pois nem tudo em uma cirurgia malconduzida é recuperável.

Costumo explicar ao paciente que uma extração excessiva ou mal distribuída pode causar rarefação visível e, pior, comprometer a possibilidade de uma segunda cirurgia caso a calvície progrida com o tempo. Por isso, o melhor transplante nem sempre é o que retira o maior número possível de folículos. É o que utiliza a quantidade adequada, no lugar correto.

A mesma lógica vale para a individualização do resultado. O cabelo não é um produto padronizado. Cada paciente tem formato de rosto, idade, padrão de calvície e capacidade de área doadora diferentes, o que exige um planejamento próprio, feito para ele. Quando existe uma busca excessiva por volume e velocidade, corre-se o risco de reduzir o planejamento individualizado. Vale lembrar, ainda, que quantidade de folículos extraídos não significa quantidade de folículos que vão crescer com qualidade.

Ao paciente que está avaliando a cirurgia com a planilha de preços aberta, minha sugestão é simples: troque a pergunta. Em vez de “onde consigo fazer mais barato?”, experimente responder “em quem eu confio para realizar uma cirurgia que vai modificar minha imagem e administrar uma área doadora que eu não consigo recuperar depois?”. A diferença entre as duas perguntas é a diferença entre um resultado que dura anos e um arrependimento que também dura.

ANDRÉ DUAILIBI | é médico e presidente do Instituto Duailibi, especializado em restauração capilar.

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