CAROLINE ARAUJO
Especial para o Palanque Mato Grosso
Filmes são espaços de impulsionamento do pensamento, tanto quanto espaços para puro entretenimento justamente porque “o cinema constitui um locus ideal para a orquestração de múltiplos gêneros, sistemas narrativos e formas de escritura.”. (STAM, 2013. p. 26). A reinvenção que a franquia Creed realizou nos últimos anos é a confirmação empírica da citação acima. Cinema é um locus de alta densidade de informação e aí acrescentamos que, o pulo do gato é quando se sabe como operacionalizar essas informações para se extrair o máximo possível do que se pretende contar.
Filmes de boxe são clássicos. “Touro indomável” (1980) e “Rocky” (1976) estão aí para nos lembrar do bom legado. Além disso, cabe pensar que boxe é uma hegemonia de atletas negros, mas, dentro do cinema, foram pugilistas brancos que ganharam mais notoriedade. Contudo, ao pensar em retomar narrativas de personagens movidos ou transformados pelo boxe em questão, era imprescindível pensar neste tempo presente, o agora, a cultura pulsante e as referências sociais que estão em holofotes. Bakhtin já dizia que cinema é um enunciado historicamente localizado. Dessa forma saiu a dura e fria costa leste – Philadelphia com os proletários italianos para abrir espaço para a costa oeste – Los Angeles e a cultura negra e do showbiz atual. E a caminhada para isso foi gradual.
“Creed: Nascido para lutar” (2015), o primeiro filme da nova franquia nos apresentava Adonis, filho de Apollo, que encontra seu passado e sua “herança” no boxe e se acerta com isso. E logicamente tudo isso sob o olhar do padrinho garanhão italiano do passado que ajuda Adonis a se encontrar dentro de si. “Creed 2” (2018), agora Adonis precisa seguir, precisa construir-se, acreditar em si, ao mesmo tempo que solidifica sua vida pessoal, com esposa, filha e inseguranças. Mas nosso cenário não é num gueto e nos arredores de fábricas. Temos conforto, dinheiro e esforço recompensado. SER o campeão mundial era a meta e ela foi alcançada.
Existe um momento na vida que o filho, já maduro, precisa sair de casa e seguir seu caminho. “Creed 3” (2023) mostra exatamente isso e a questão não é encontra-se. Adonis já chegou ao topo, voltou, e retomou seu lugar. Inclusive até, na boa forma física, achou por bem aposentar-se. Tudo está bem. Money, love and family. O que mais poderia acontecer? Você precisará de um balde de pipoca grande…vai por mim.
Escrito por Keenan Coogler e Zach Baylin, a partir de uma história de Ryan Coogler, o roteiro nos apresenta a um Adonis (Michael B. Jordan) consolidado como um dos melhores lutadores de todos os tempos e que agora, aposentado, gerencia sua academia e também a carreira do campeão dos pesos pesados Félix Chavez (José Benavidez). No entanto, o retorno de Damien Anderson (Jonathan Majors), um velho amigo do passado, acaba trazendo alguns traumas à tona e obriga Adonis a renunciar a sua aposentadoria para um acerto de contas. Super anime isso.
A história de dois amigos de longa data que se tornam rivais e resolvem as diferenças através da luta é um tema bem comum no gênero de anime. Em “Creed 3” Damian parece ser mais protagonista da história que o próprio Adonis, justamente por ter sido ele o garoto que teve seu futuro negado e agora busca provar seu valor e chegar ao topo, no qual o ex-amigo está. E para isso ele não medirá esforços. É interessante vermos como essa relação do arco dramático de Damian é subversivo ao de Rocky: um lutador, gênese de Creed; uma vez que no filme de Stallone é um azarão de bom coração que aceita de bom grado a oportunidade de enfrentar o campeão. Na película atual, temos um personagem que está disposto a fazer o que for preciso para conseguir o que quer. E aí, companheiros Jonathan Majors foi preciso na construção de Damian nessa contraposição a Adonis. Ele tem uma entrega, indo de várias nuances pensadas e programadas em seu plano de ascensão. É um homem com raiva do mundo e desconta todo o ódio que carrega em cada soco que desfere. Isso exala pelo olho, pela postura e pelo suor. Aliás, a planificação – enquadramento e movimento de câmera, pensados para as cenas de luta, são de tirar o chapéu. Colocam o espectador no ring, no detalhe, na respiração e ajudam a somar a tensão que se forma na narrativa proposta.
Chama minha atenção ainda a questão sensorial que flui dentro do filme, e que deságua na questão de oportunizar identidades. A questão da filha surda, e os diálogos em libras mostram o quão importante é incorporar essa realidade a ficções que tenham grande alcance.
Michael B. Jordan, além de nos entregar Adonis, se mostra versátil na sua estreia na direção e pode ser promissor. Ele ousou mostrar o clímax da luta de Adonis e Damian numa realidade descolada do estádio, com fundo em CGI e golpes em câmera lenta de hiper-realismo, além de um trabalho de luz muito bacana. Essa licença poética como uma espécie de sonho daquele momento dá uma grata surpresa e opera como se fosse um balão de informação extra que aparece, antes da roda dentada voltar a girar loucamente a base de socos. Me remeteu muito ao jeitão Zack Snyder. “Creed 3” estreou nos cinemas em março, mas já se encontra em streamings como Apple TV para locação, e eu garanto, serão minutos bem gastos de diversão.

CAROLINE ARAUJO
Cineasta, professora e Pesquisadora. Doutoranda em Estudos de Cultura do Contemporâneo – ECCO – UFMT, integrante do grupo de pesquisa Artes Hibridas – ECCO – UFMT.



