22 de outubro de 2026 2:58 PM

Foto: Adobe Stock

Sarampo avança nas Américas e coloca Brasil em alerta para novos surtos

Especialistas alertam que casos importados podem provocar surtos em regiões com baixa cobertura vacinal.

SILVANA REIS | POLIANA CASEMIRO | G1

 

O Brasil tenta preservar o status de país livre da circulação endêmica do sarampo, recuperado em novembro de 2024, em um momento em que países vizinhos registram mais de 20 mil casos. O Peru, por exemplo, já tem cerca de 3 mil casos e a Bolívia também vive uma situação de descontrole, conforme destacou ao g1 o diretor do Departamento Nacional de Imunizações (DPNI), Eder Gatti.

Por isso, o foco do Ministério da Saúde neste momento é reforçar a vigilância e intensificar a vacinação com a tríplice viral, que protege contra sarampo, caxumba e rubéola, em municípios que fazem fronteira com o Peru, na região oeste do Amazonas.

Apesar de o país ter a melhor cobertura de vacinação contra o sarampo desde 2016, nenhum estado atingiu ainda a meta de vacinar 95% das crianças menores de 2 anos com duas doses por ano. Este é o índice considerado necessário para impedir a circulação sustentada de um dos vírus mais contagiosos que existem.

No país, a imunização completa com as duas doses da vacina tríplice viral está abaixo de 80%, cenário que preocupa especialistas diante do avanço da doença em países vizinhos.

A primeira dose garante uma imunidade de 94% a 96% contra o sarampo. Já as duas doses garantem proteção acima de 97% contra a doença.

Gatti explicou que, em crianças de até 5 anos, a cobertura da segunda dose chegou a 91% em 2024, ainda também abaixo da meta de 95%. Além disso, o período ideal para a criança ser vacinada com as duas doses é de até os 2 anos de idade.

Este ano, os estados que lideram o índice de cobertura vacinal contra a doença até o momento são o Ceará, com 86,69%; Paraná, com 86,76%, e Minas Gerais com 86,05%.

Os piores índices foram registrados até agora no Amapá, com 63,59%; Pará, com 67,02%; Maranhão, com 69,66% e Rio de Janeiro, com 69,74%.

Já em 2025, os estados que tiveram os melhores índices de cobertura foram o Paraná, com 89,92%; Minas Gerais, com 87,62; Rondônia, com 84,56% e Distrito Federal, com 84,03%. E os piores índices ficaram com o Pará, com 58,25%; Goiás, com 58,59% e Amapá, com 63,02%.

Casos importados podem provocar novos surtos

Embora o país não registre transmissão sustentada da doença, casos importados continuam sendo identificados e podem provocar novos surtos, especialmente em regiões com baixa cobertura vacinal.

Em 2025, o Brasil registrou 39 casos de sarampo. Em 2026, já são pouco mais de 50, destaca o infectologista Renato Kfouri, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm). A maioria das ocorrências deste ano foi registrada no estado de São Paulo, principalmente na capital.

Os números brasileiros contrastam com a situação de países vizinhos e dos Estados Unidos, que enfrentam um dos piores cenários de sarampo das últimas décadas. O país norte-americano já ultrapassou 3,6 mil casos em 2026 e cinco mortes. No início de outubro, Nova York declarou estado de emergência devido ao avanço da doença.

Para os especialistas, a principal preocupação é que a redução da vacinação permita o acúmulo de pessoas suscetíveis à infecção, criando condições para que casos isolados se transformem em surtos.

“Quando a gente atinge mais de 95% da população vacinada, a gente impede que esses casos importados se traduzam por uma transmissão sustentada da doença, mantendo a circulação do vírus aqui. Então a gente precisa não só ter coberturas elevadas, mas também homogêneas, porque bolsões de baixas coberturas podem também ter o mesmo efeito da cobertura não tão ideal”, explica Kfouri.

Brasil recuperou certificação de eliminação, mas continua registrando casos

Segundo Kfouri, o último caso autóctone registrado no país (de quem contrai uma doença no próprio território onde vive ou onde o caso foi registrado) ocorreu em junho de 2022, no Amapá.

Isso não significa, porém, que o vírus tenha deixado de representar uma ameaça.

A circulação internacional de pessoas continua trazendo casos para o território brasileiro. São brasileiros que contraem a doença durante viagens ao exterior ou estrangeiros que chegam infectados ao país.

Esses episódios podem provocar pequenas cadeias de transmissão, mesmo sem estabelecer uma circulação contínua do vírus.

Segundo Kfouri, foi o que ocorreu nos casos registrados recentemente no Brasil, com transmissões restritas a pequenos grupos.

Este ano, a maior concentração de casos ocorreu em São Paulo. Segundo o infectologista, o estado está há sete semanas praticamente sem novos registros, mas é necessário observar um período maior para considerar interrompida a transmissão.

O especialista explica ainda que a entrada de novos casos no Brasil é esperada, especialmente diante dos surtos em países das Américas.

“É inexorável a entrada de pessoas com sarampo aqui no país, já que o deslocamento populacional, milhares de pessoas vêm desses países vizinhos diariamente por fronteiras secas, aéreas, rodoviárias”, afirma.

Para ele, a diferença entre identificar um caso importado e enfrentar um surto está diretamente relacionada à proteção da população.

A vacinação elevada e distribuída de maneira homogênea é fundamental para evitar que o vírus encontre pessoas suscetíveis suficientes para manter sua transmissão.

Por que a meta de 95% é tão importante?

O sarampo é uma das doenças infecciosas mais contagiosas que existem. Sua transmissão ocorre pelo ar, por meio da tosse, espirros, fala ou respiração de uma pessoa infectada.

Por causa da facilidade de disseminação do vírus, é necessário que pelo menos 95% da população esteja protegida para impedir sua circulação sustentada.

Esse patamar está relacionado à chamada imunidade coletiva, ou imunidade de rebanho, quando há um número suficiente de pessoas imunizadas para dificultar a transmissão da doença, inclusive protegendo aquelas que não podem receber a vacina.

Quando a cobertura fica abaixo desse nível, aumentam as possibilidades de circulação do vírus.

O problema não se limita aos índices nacionais ou estaduais. Mesmo em regiões com percentuais relativamente elevados, podem existir comunidades com grande concentração de pessoas não vacinadas.

Esses grupos formam os chamados bolsões de suscetibilidade, capazes de favorecer surtos localizados.

Kfouri ressalta que, além de alcançar a meta, é necessário garantir que a vacinação esteja distribuída entre diferentes regiões e grupos populacionais.

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