31 de julho de 2026 6:03 PM

Pediatra pode bloquear paciente no WhatsApp?

Especialista afirma que bloquear o contato não encerra necessariamente o vínculo entre médico e paciente.

Foto: AdobeStock

POLIANA CASEMIRO | G1 


Uma influenciadora descobriu que havia sido bloqueada no WhatsApp pela pediatra da filha ao tentar pedir orientação porque a bebê estava resfriada. O relato viralizou e dividiu pais e médicos sobre uma questão que se tornou parte da rotina dos consultórios: até onde vai o atendimento pelo celular?

Segundo o relato, a pediatra já acompanhava a criança e havia oferecido um pacote de 12 consultas, pago à vista, que incluía assistência pelo aplicativo 24 horas por dia. A mãe decidiu não contratar o serviço, mas afirma que perguntou se ainda poderia enviar mensagens em caso de dúvida e recebeu uma resposta positiva.

Algum tempo depois, ao tentar falar com a médica porque a filha havia acordado resfriada, percebeu que as mensagens não eram entregues. Com a piora dos sintomas, ligou para o consultório para marcar uma consulta e comentou que a pediatra não havia recebido suas mensagens. Foi então informada pela secretária de que seu número havia sido bloqueado porque ela não havia contratado o serviço de disponibilidade pelo WhatsApp.

O relato acumulou milhares de comentários. De um lado, pais disseram recorrer ao aplicativo para esclarecer dúvidas rápidas sobre a saúde dos filhos. Do outro, médicos afirmaram que o canal passou a funcionar como uma espécie de pronto-socorro informal, com mensagens enviadas a qualquer hora e sem triagem.

Embora o uso do WhatsApp tenha se incorporado à rotina dos consultórios, o médico não é obrigado a fornecer seu telefone pessoal nem a manter um canal permanente de atendimento.

WhatsApp pode complementar a consulta, não substituí-la

De acordo com o Conselho Federal de Medicina (CFM), a consulta é considerada um ato médico completo quando reúne entrevista clínica, exame físico, formulação de uma hipótese diagnóstica e, quando necessário, prescrição.

Isso significa que a prestação daquele serviço se encerra com o atendimento. A continuidade do contato por telefone ou aplicativo depende do que foi combinado entre o profissional e o paciente.

“É uma gentileza do médico passar o número dele para continuar com orientações complementares depois da consulta. A prestação de serviço já foi cumprida ali. Não existe nada que obrigue o médico a entregar o telefone pessoal para o paciente”, afirma a advogada Ana Paula Tomé, especialista em direito médico.

Segundo ela, o WhatsApp pode ser usado para esclarecer questões pontuais, acompanhar a evolução de um quadro ou reforçar orientações dadas durante a consulta. O aplicativo, no entanto, não deve substituir uma nova avaliação quando há piora dos sintomas, necessidade de exame físico ou suspeita de urgência.

Também não há obrigação de que o profissional permaneça disponível durante todo o dia. Horários, tipo de demanda aceita e prazo de resposta podem ser definidos pelo consultório.

Procurada pelo g1, a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) informa que não se manifesta sobre situações individuais. A entidade afirmou que casos dessa natureza envolvem circunstâncias específicas da relação entre médico e paciente e aspectos éticos e profissionais que precisam ser avaliados conforme o contexto.

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