O Brasil já é o quarto país do mundo que mais utiliza Inteligência Artificial (IA) no dia a dia. Segundo dados do Google, 82% dos brasileiros recorrem à tecnologia em suas atividades cotidianas, ficando atrás apenas de Nigéria, Emirados Árabes Unidos e Índia. Como médico radiologista, vejo esse avanço não apenas como uma tendência tecnológica, mas como uma transformação estrutural capaz de impactar uma das maiores prioridades nacionais: a saúde pública.
Em um país sobrecarregado pelas Condições Crônicas Não Transmissíveis (CCNTs), a questão já não é mais se a IA será utilizada, mas como e em benefício de quem. Um dos principais exemplos dessa mudança é o enfrentamento da obesidade. Atualmente, a doença afeta cerca de um em cada três brasileiros (31%), de acordo com o Atlas Mundial da Obesidade 2025. As projeções para 2030 indicam que 46,2% das mulheres e 33,4% dos homens viverão com a condição.
Essa realidade se torna ainda mais preocupante quando observada sob a perspectiva regional. Um levantamento do Ministério da Saúde, divulgado pelo Conselho Regional de Enfermagem de Mato Grosso (Coren-MT), mostrou que, até 2019, Cuiabá liderava o ranking das capitais brasileiras com maior proporção de pessoas acima do peso ideal. Na capital mato-grossense, o excesso de peso atinge 65,1% dos homens, enquanto 29,3% das mulheres são classificadas como obesas. Esse cenário reforça a necessidade urgente de novas estratégias de prevenção e tratamento.
Os impactos são tanto humanos quanto financeiros. Um estudo publicado na revista Public Health estima que os custos relacionados ao excesso de peso para o Sistema Único de Saúde (SUS) podem ultrapassar US$ 22 bilhões até 2030. Diante dessa perspectiva, a Inteligência Artificial deixa de ser apenas uma promessa e passa a ser uma ferramenta essencial para a sustentabilidade do sistema de saúde.
Na linha de frente dessa transformação está a radiologia, minha área de atuação. Hoje, algoritmos já são capazes de analisar imagens de composição corporal com elevada precisão, prever trajetórias de perda de peso e personalizar terapias a partir do histórico clínico de cada paciente. No entanto, o maior potencial da IA está na capacidade de identificar riscos antes mesmo que a doença se manifeste.
O mercado internacional já apresenta exemplos concretos dessa aplicação. Nos Estados Unidos, a plataforma Virta Health utiliza Inteligência Artificial para monitorar, em tempo real, dados biométricos e hábitos alimentares dos pacientes, permitindo que médicos ajustem tratamentos de forma preventiva. O modelo tem demonstrado perdas de peso sustentadas superiores a 10% e redução significativa no uso de medicamentos, evidenciando os benefícios do acompanhamento contínuo.
No Brasil, iniciativas voltadas à atenção primária também começam a ganhar espaço. Pesquisadores da UFBA e da UFMG lideram um projeto-piloto que utiliza IA para analisar bases de dados públicos e históricos do SUS, incluindo informações de pré-natal e indicadores socioeconômicos, com o objetivo de identificar o risco de obesidade infantil nos primeiros anos de vida. Em vez de depender exclusivamente de exames caros, a tecnologia aproveita informações já coletadas pelo sistema para gerar indicadores de risco e permitir que as equipes de Saúde da Família atuem de forma mais precoce e eficaz.
No Instituto Afya, acreditamos que inovação sem propósito pode ampliar desigualdades. Como instituição dedicada à educação médica e à produção científica, entendemos que a Inteligência Artificial tem potencial para se tornar uma das maiores aliadas da medicina moderna, desde que sua aplicação seja guiada pela ética, fundamentada em evidências científicas e centrada nas necessidades do paciente.
O futuro da saúde não será exclusivamente analógico nem puramente digital. Será um modelo preditivo, humano e responsável. E essa transformação já está em curso.
GUSTAVO MEIRELLES | é médico radiologista e executivo com mais de 25 anos de experiência em liderança, inovação e gestão em saúde



