18 de junho de 2026 4:45 PM

Café solúvel brasileiro pode ser sobretaxado em nova rodada de Trump

Abics afirma que café solúvel tradicional pode ter sido excluído por falha na classificação dos códigos.

Foto: Reprodução | TV Gazeta

PAULA SALATI | G1

 

A indústria brasileira de café solúvel vai para os Estados Unidos defender o produto nacional contra a nova rodada de tarifas proposta por Donald Trump. A audiência pública acontece no dia 6 de julho, em Washington, e pode definir se os EUA vão sobretaxar, mais uma vez, o Brasil.

O café solúvel é o único tipo de café que ficou de fora da lista de isenções dos novos tarifaços, uma situação que se repete desde o ano passado.

“Nós vamos participar tanto da audiência como das manifestações por escrito”, conta Aguinaldo Lima, diretor-executivo da Associação Brasileira da Indústria de Café Solúvel (Abics).

Em 1º de junho,Trump propôs tarifas de 25% sobre mercadorias brasileiras, após uma investigação sobre diferentes temas, como desmatamento ilegal, pirataria e PIX.
No dia seguinte, ele anunciou taxas adicionais de 12,5% para 60 países por falha no combate ao trabalho forçado, incluindo o Brasil.

Para ambos os casos, foi publicada uma vasta lista de isenções que inclui os cafés em grão, torrado e moído.

Soma-se a isso o fato de que o café solúvel aromatizado também foi beneficiado pelas isenções, enquanto a versão tradicional ficou de fora. “Acreditamos que possa ter ocorrido alguma falha na classificação dos códigos, porque não faz sentido”, afirma.
Outra hipótese levantada pela Abics é a de que os americanos estejam tentando reindustrializar o setor.

“Mesmo que os EUA decidam produzir mais café solúvel, ainda precisariam importar a matéria-prima. Além disso, trata-se de uma indústria que não leva menos de quatro ou cinco anos para ser instalada. Esse, inclusive, é um dos argumentos que estamos apresentando”, afirma.

“Por outro lado, sabemos que tudo isso é parte de um jogo mais complexo. Os Estados Unidos querem um bom acordo na área de minerais críticos, terras raras, PIX, big techs e por aí vai”, comenta.

O que o setor vai argumentar na audiência

Segundo Lima, uma das linhas de argumentação será mostrar o impacto do tarifaço sobre a inflação do café nos EUA, além da importância do solúvel brasileiro para a economia americana. “Essa análise ainda está sendo feita, mas vamos debater em cima de dados”, reforça.

Números preliminares do relatório mostram que os EUA produzem apenas 6% do café solúvel consumido internamente.

“Todo o restante é importado, principalmente do Brasil e do México. Em 2024, [último ano antes do tarifaço], o Brasil respondeu por 37% de todo o volume de café solúvel importado pelos americanos”, afirma Lima.

Ele reforça que os dados ainda estão sendo validados e que farão parte da manifestação escrita que a Abics está preparando para enviar às autoridades americanas. O documento será entregue até 1º de julho, prazo fixado pelos EUA para que governos e associações se manifestem sobre as tarifas.

Ele explica que boa parte da argumentação será feita por escrito porque cada pessoa só tem três minutos para falar na audiência pública. “Durante a apresentação, a gente precisa ser muito direto”.

“Depois dos três minutos, eles abrem para perguntas. E, pela experiência que tivemos no ano passado, o café não é tão questionado. Geralmente, o setor de carne e os frigoríficos recebem mais perguntas”, comenta.
“Mas estaremos lá para marcar presença”, reforça.

Dados do Departamento de Estatísticas do Trabalho dos EUA (Bureau of Labor Statistics) mostram que a inflação do café solúvel nos EUA teve alta de 24% em maio, no acumulado em 12 meses.

Entre agosto de 2025 e fevereiro deste ano, o produto brasileiro foi taxado em 50% nos EUA, o que derrubou as vendas da indústria brasileira para este mercado. Em 20 de fevereiro, o Congresso dos EUA derrubou essa sobretaxa, mas, no mesmo dia, Trump impôs uma tarifa global de 10%.

“Em julho, vence o prazo da taxa de 10%”, lembra Lima. Segundo ele, caso as novas tarifas entrem em vigor, o café solúvel brasileiro deve ser taxado em 37,5% no mercado americano e provocar mais um baque para o setor.

Além do impacto inflacionário nos EUA, Lima ressalta que o café solúvel é importante para a economia americana.

“Parte da agregação de valor do café solúvel é feita nos Estados Unidos. São as empresas de lá que envasam e fazem a distribuição. Isso gera emprego para os americanos. Não é um produto que vai pronto”, destaca.

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